Kassab cobra dupla econômica forte para Lula 4 e recoloca disciplina fiscal no centro
Presidente do PSD cita Palocci e Meirelles; comparação com 2003 não elimina diferenças entre os dois cenários nem resolve a escolha da equipe.

O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, defendeu que Luiz Inácio Lula da Silva escolha uma dupla forte para comandar a economia no quarto mandato, com nomes no Ministério da Fazenda e no Planejamento capazes de conduzir a política fiscal e dialogar com o Banco Central. A avaliação foi dada em entrevista ao programa Canal Livre, da Band.
Kassab comparou o desenho desejável para 2027 à equipe formada por Antonio Palocci na Fazenda e Henrique Meirelles no Banco Central no primeiro governo Lula. Segundo o presidente do PSD, a equipe teria de conciliar os compromissos sociais assumidos pelo presidente com disciplina fiscal e previsibilidade para investidores. A fala é uma cobrança política de Kassab, não uma indicação de que os nomes já foram escolhidos.
A comparação com 2003 não resolve a escolha de 2027
Palocci comandou a Fazenda de janeiro de 2003 a março de 2006; Meirelles presidiu o Banco Central durante os oito anos dos dois primeiros mandatos de Lula, segundo o levantamento histórico reproduzido pela Band. A separação entre Fazenda, Planejamento e Banco Central não elimina conflitos, mas pode tornar visíveis as responsabilidades de cada área: o Planejamento acompanha gastos e prioridades, a Fazenda cuida da política fiscal e o BC conduz a política monetária dentro de sua autonomia legal.
O próprio histórico oficial da Presidência registra que o primeiro mandato combinou controle da inflação, superávit primário e juros altos em um ambiente externo favorável, com crescimento das exportações e melhora da confiança. A comparação de Kassab, portanto, mistura uma escolha institucional real com um período econômico que teve condições internacionais diferentes das atuais. Não é possível atribuir todo o resultado daquele ciclo apenas à dupla citada.
O saldo político exige prestação de contas
O PT soma aproximadamente 17 anos e meio no comando da Presidência no recorte até 2026. Esse período inclui resultados documentados, como expansão de programas sociais e políticas públicas, mas também crises de governança e episódios jurídicos que precisam permanecer no balanço. A Ação Penal 470 terminou com condenações de réus; a Operação Lava Jato investigou crimes de corrupção e lavagem de dinheiro; e o STF anulou decisões contra Lula por incompetência da 13ª Vara de Curitiba, alterando o status jurídico das condenações.
Esses fatos não autorizam acusação coletiva contra o partido nem transformam o desempenho econômico de uma equipe em prova de crime. Eles impedem, porém, que a referência a 2003 seja usada como atalho para dispensar prestação de contas. Uma nova equipe terá de apresentar metas, custos, trajetória da dívida, prioridades de gasto e critérios para avaliar se a agenda social foi financiada de forma sustentável.
A escolha ainda é uma decisão de Lula
Kassab disse que o cenário atual é mais complexo que o de 2003 e que Lula precisa empoderar os responsáveis pela economia. O presidente ainda não anunciou os ministros da Fazenda e do Planejamento nem o próximo presidente do Banco Central. Também não há um pacote fiscal formal apresentado pelo novo governo que permita avaliar a compatibilidade entre as promessas e o orçamento.
O ponto central da cobrança não é reproduzir nomes do passado, mas saber se o próximo arranjo terá autoridade, transparência e responsabilidade suficiente para cumprir as promessas sem transferir a conta para inflação, juros, dívida ou impostos futuros. A resposta dependerá dos atos de nomeação, do orçamento e das primeiras decisões do mandato.
Fontes e limites: Band, Arquivo Nacional, Casa Civil, STF e MPF. Kassab é fonte diretamente interessada na articulação partidária e sua comparação é uma interpretação política; a escolha da equipe e o plano fiscal ainda não estão definidos.