Durigan nega encontro entre Lula e Lara Resende; Gleisi apoia tese sobre juros
Ministro diz que proposta de Selic menor não está na mesa; apoio de Gleisi amplia o debate sobre dívida, inflação e autonomia do Banco Central.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que exista encontro agendado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o economista André Lara Resende. Durigan também disse que ideias como tabelar juros ou usar reservas internacionais para conter o câmbio não estão em avaliação pelo governo, segundo Valor e Folha.
As negativas respondem a relatos de que Lula poderia conversar com Lara Resende nesta semana. O ministro afirmou que vários economistas se colocaram à disposição do presidente, mas que não havia reunião prevista especificamente com o formulador do Plano Real. O registro atual é de proposta em debate público e ausência de agenda oficial confirmada — não de adoção pelo governo.
A proposta que provocou o debate
Lara Resende defende reduzir gradualmente a taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano segundo as reportagens consultadas, para cerca de 7,5% em aproximadamente 12 meses. Depois, a taxa operaria em uma faixa entre a meta de inflação de 3% e uma estimativa de crescimento nominal de 5,5%. A formulação está no artigo do próprio economista, “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, e não em decisão do Banco Central ou ato do Executivo.
O arranjo proposto criaria um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para coordenar metas de inflação, juros, arrecadação e despesas. A tese parte da ideia de que o custo dos juros é a principal causa do desequilíbrio fiscal, enquanto a explicação mais comum entre economistas ouvidos pela Folha atribui os juros altos sobretudo ao risco fiscal e à falta de credibilidade das contas públicas.
O efeito depende da reação do mercado
Na prática, uma Selic menor tende a reduzir o custo de novos empréstimos e de parte dos títulos públicos pós-fixados. Mas o efeito depende das expectativas: se o mercado interpretar a queda como decisão política sem uma âncora fiscal confiável, o real pode se desvalorizar, pressionando preços de importados e inflação. Gestores ouvidos pela Folha também apontaram risco para a autonomia operacional do Banco Central e para os juros futuros. Essas são avaliações de agentes de mercado, não resultados já observados.
O apoio de Gleisi não é decisão de política econômica
A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, classificou o artigo de Lara Resende como “fundamental” para enfrentar o que chamou de “ofensiva terrorista” sobre a política fiscal, segundo Valor. O elogio mostra que a tese ganhou apoio político dentro do partido, mas não substitui uma decisão do governo, do Conselho Monetário Nacional ou do Banco Central.
O presidente do PT, Edinho Silva, disse à Folha que especulações econômicas não ajudam o país e que Durigan é quem fala pelo governo na política econômica. A diferença entre as falas é relevante: uma liderança partidária pode defender uma interpretação sobre juros e dívida; a política oficial depende de atos, metas, orçamento e decisões das autoridades competentes.
O que ainda depende de decisão
O governo ainda não apresentou um ato que adote a proposta de Lara Resende, marque uma reunião com ele ou determine uma redução da Selic por esse mecanismo. Também não há Conselho Fiscal e Monetário criado para substituir a coordenação atual. A próxima decisão do Copom e a definição da equipe econômica serão fatos separados da defesa pública feita por Gleisi.
Para empresas e famílias, a diferença entre as duas teses aparece no custo do crédito e na estabilidade dos preços. Juros menores podem aliviar financiamentos, mas uma perda de confiança pode elevar o dólar, a inflação e as taxas cobradas pelos próprios bancos. O resultado não está definido: dependerá da trajetória fiscal, das expectativas, da comunicação do governo e da reação do Banco Central.
Fontes e limites: Valor — Durigan, Valor — Gleisi, Folha e texto original de Lara Resende. Durigan, Gleisi e Lara Resende são fontes diretamente envolvidas no debate; riscos futuros são cenários condicionais.