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Embrapa transforma lodo de ETA em fertilizante de liberação lenta

Pesquisa desenvolveu grânulos com nitrogênio e potássio, mas a tecnologia ainda precisa de piloto industrial, validação em campo e registro.

Ilustração editorial que mostra um fluxo simbólico de lodo de tratamento de água para um vaso de conversão, grânulos e uma plantação, com checklist de testes.
Ilustração editorial Estoaris.

Uma pesquisa da Embrapa em parceria com a Sabesp desenvolveu uma rota experimental para transformar lodo de estações de tratamento de água em fertilizante de liberação lenta. O processo hidrotérmico retém o alumínio presente no resíduo e produz grânulos enriquecidos com nitrogênio e potássio.

O lodo de ETA é diferente do lodo de esgoto. Ele tem baixa carga orgânica e pode concentrar sais de alumínio usados no tratamento da água. A tecnologia descrita pela Embrapa reorganiza esse material para formar cristais de sodalita, uma zeólita usada na formulação dos grânulos. O objetivo é transformar um resíduo com custo de manejo em um insumo agrícola e, ao mesmo tempo, controlar a liberação de nutrientes.

Os testes divulgados foram feitos em laboratório e em casa de vegetação, com azevém e capim-piatã. Segundo a Embrapa, os tratamentos com sodalita granulada tiveram eficiência agronômica de duas a três vezes a do controle no azevém; resultado semelhante, com diferença menor, apareceu na braquiária. O resultado não equivale a uma validação em lavoura comercial: condições de solo, clima e manejo podem alterar o desempenho.

O projeto também avaliou o uso dos grânulos como veículo para microrganismos. A formulação não foi considerada adequada para o fungo Trichoderma asperelloides, mas apresentou compatibilidade com a bactéria Bacillus megaterium, que permaneceu viável por quase cinco meses no teste descrito pela instituição.

A dimensão do passivo ajuda a explicar o interesse da Sabesp. Segundo a nota da Embrapa, a companhia gera cerca de 124 mil toneladas de lodo desidratado por ano em 208 estações de tratamento de água no estado de São Paulo. O custo médio informado para transporte e destinação é de aproximadamente R$ 300 por tonelada. Esses valores são dados institucionais da parceria, não uma auditoria independente dos custos de cada unidade.

O estudo durou quatro anos, envolveu mais de R$ 2,7 milhões e teve apoio de unidades da Embrapa e da FAPESP. A etapa seguinte é buscar empresas para um projeto-piloto industrial, fazer validação agronômica em campo e cumprir os procedimentos para eventual registro no Ministério da Agricultura e Pecuária.

Isso significa que a tecnologia ainda não deve ser tratada como fertilizante comercial disponível. A evidência reunida mostra uma solução de pesquisa aplicada com resultados preliminares e potencial de economia circular, mas não permite afirmar custo final, escala de produção, segurança em todos os solos ou retorno financeiro para saneamento e agricultura.