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Câmbio pesa no radar do Copom antes da reunião

Economista avalia que o real mais fraco pode elevar projeções de inflação; Banco Central mantém a Selic em 13,75% antes da reunião de 3 e 4 de novembro.

Ilustração editorial em grafite com prédio institucional genérico, quadro abstrato de câmbio, linha ascendente, calendário e cesta de compras, sem texto legível.
Ilustração editorial Estoaris.

O câmbio entrou no centro das avaliações para a próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom). Em reportagem publicada em 2 de novembro, a economista Tatiana Pinheiro, pesquisadora da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas em São Paulo, disse que a desvalorização do real pode pressionar as projeções de inflação e pesar contra um novo corte da Selic.

O Banco Central mantém a taxa básica em 13,75% ao ano desde a reunião de setembro. O calendário oficial prevê reunião do Copom em 3 e 4 de novembro, quando o comitê decidirá a taxa vigente para o próximo período. A avaliação de uma economista e a expectativa de mercado não substituem o comunicado oficial do Banco Central.

Como o câmbio chega aos preços

Quando o real perde valor frente ao dólar, produtos importados e insumos cotados em moeda estrangeira ficam mais caros em reais. O repasse não é imediato nem igual para todos os itens: depende de estoques, contratos, concorrência, margens e da duração do movimento.

O Relatório de Política Monetária do Banco Central descreve esse repasse como heterogêneo. Alimentação no domicílio e bens industriais tendem a ser mais sensíveis; serviços respondem menos diretamente. A taxa de câmbio é, portanto, um canal de transmissão para a inflação, mas não determina sozinha o índice de preços.

O próprio Banco Central registrou, na ata de setembro, expectativas de inflação acima da meta para 2026 e 2027 e classificou o cenário como marcado por incerteza e riscos elevados. A ata também informou a redução da Selic para 13,75% naquela reunião.

O que mudou antes da reunião

Segundo a avaliação publicada pela CNN Brasil, o real passou a operar perto de R$ 5,35 por dólar depois do resultado eleitoral, acima do patamar observado na reunião anterior. A referência é uma cotação de mercado mencionada na reportagem; ela não é a mesma coisa que a Ptax do Banco Central.

Na última referência oficial do período disponível, a Ptax de venda registrada pelo Banco Central em 30 de outubro foi de R$ 5,4212. A Ptax é calculada pelo BC com metodologia própria, enquanto a cotação à vista varia conforme horário, liquidez e mercado observado. Comparar as duas exige preservar essa diferença.

Tatiana Pinheiro também avaliou que o próximo Focus poderia elevar as expectativas para 2026 e 2027 e deslocar a projeção do horizonte relevante, no primeiro semestre de 2028, de 3,2% para perto de 3,5%. Esses números são a avaliação da economista publicada pela CNN, não uma projeção oficial já divulgada pelo Banco Central. A página do BC informa o Focus como pesquisa de expectativas de mercado e indica divulgação programada para 3 de novembro.

Pausa, corte e o “olhar além”

Pinheiro afirmou que o Copom poderia usar a estratégia conhecida como *looking through*: olhar além de um choque cambial temporário para não reagir a toda oscilação de curto prazo. Isso não significa ignorar o câmbio. A distinção é entre uma mudança que se dissipa e um movimento persistente que altera preços, expectativas e condições financeiras.

Uma pausa manteria a taxa básica em 13,75% e prolongaria o período de crédito restritivo. Um corte de 0,25 ponto poderia reduzir a taxa de referência, mas o efeito sobre empréstimos depende do risco do tomador, do prazo, do banco e da curva de juros. Se o mercado interpretasse a decisão como incompatível com a inflação ou com a política fiscal, câmbio e juros futuros poderiam reagir em sentido contrário ao alívio pretendido.

Para famílias e empresas, a informação relevante não é apenas se o Copom corta ou mantém a Selic. É também como o comunicado descreve o câmbio, as expectativas, a atividade e o horizonte relevante. Esses elementos indicam o que o comitê está tentando controlar e quais condições precisariam mudar para um ciclo de cortes continuar.