A transição para 2027 começa com duas referências fiscais diferentes: o governo projeta no orçamento um resultado primário ajustado de R$ 83,4 bilhões, acima da meta central, enquanto a Instituição Fiscal Independente (IFI) estima que os compromissos recentes podem produzir déficit efetivo e exigir esforço adicional para estabilizar a dívida.
O Projeto de Lei Orçamentária de 2027 apresentado pelo Ministério da Fazenda prevê superávit primário “cheio” de R$ 18,6 bilhões, considerando todas as receitas e despesas primárias. Com as deduções permitidas pelo regime fiscal, o resultado usado para a meta chega a R$ 83,4 bilhões, ou 0,56% do PIB, contra uma meta central de R$ 73,2 bilhões, equivalente a 0,5%.
A diferença entre os números é relevante porque o resultado ajustado não elimina a necessidade de executar o orçamento dentro das regras nem garante, sozinho, que a dívida pare de crescer. O próprio projeto prevê despesas primárias de R$ 2,576 trilhões e inclui exceções que podem ser descontadas do cálculo da meta.
O ponto de partida das contas também é pressionado. Na síntese fiscal do Ipea, o governo central acumulava déficit primário de R$ 93,7 bilhões entre janeiro e agosto de 2026 e déficit de R$ 68,7 bilhões em 12 meses. No mesmo retrato, a dívida bruta do governo geral alcançava cerca de 82,9% do PIB.
A IFI, em seu relatório de outubro, trabalha com uma leitura mais exigente. Considerados novos compromissos, a instituição estima um déficit primário efetivo potencial de 1% do PIB em 2027 e afirma que a distância entre esse cenário e o superávit de 2,1% do PIB que considera necessário para estabilizar a relação dívida/PIB aponta para um ajuste de aproximadamente três pontos percentuais.
Esse cálculo da IFI é uma projeção técnica, não uma decisão do governo nem uma previsão inevitável. A instituição também identifica como fontes de pressão medidas como o reajuste do Bolsa Família, o fim das apostas de quota fixa e propostas voltadas aos microempreendedores. O efeito final dependerá do desenho das medidas, da tramitação no Congresso, da execução das despesas e do comportamento da economia.
A questão política para o próximo mandato é transformar uma meta orçamentária em trajetória executável sem confundir resultado ajustado com redução efetiva do endividamento. O próximo teste verificável será a definição das medidas compensatórias, a tramitação do orçamento e a execução dos gastos ao longo de 2027.
